Falando de Futebol – por Junior Moresco
Eles Fizeram História
Há árbitros que passam pelos jogos.
E há aqueles que marcam os jogos — pela postura, pela leitura, pela serenidade.
Hoje, a memória é de um desses: Sálvio Spínola Fagundes Filho.
Falar de Sálvio é falar de confiança. Daquelas que se sente ainda no vestiário, na conversa pré-jogo, no olhar atento antes do apito inicial. Trabalhamos juntos inúmeras vezes — eu como delegado da Confederação Brasileira de Futebol — e sempre foi assim: tranquilidade para quem organiza, respeito para quem joga, autoridade natural para quem decide.
Um profissional de conversa fina, inteligência rara e leitura de jogo impressionante. Daqueles que entendem o futebol antes da bola rolar.
Em 2010, esse reconhecimento ganhou um capítulo especial em Santa Catarina. O saudoso Delfim Peixoto, então presidente da Federação Catarinense de Futebol, confiou a Sálvio a final do Returno do Catarinense entre Avaí e Figueirense, na Ressacada. Fui o delegado daquela decisão. Guardo até hoje, no meu memorial, a camisa usada por ele na partida — autografada por todos que trabalharam naquele jogo. Um símbolo de respeito mútuo e de um momento que virou história.
As assistências ficaram por conta de Marco Antônio Martins (in memoriam) e Luís Alberto Kallenberger, hoje na comissão de arbitragem da Federação Catarinense. Um trio à altura de um clássico que pedia grandeza.
Números que explicam o tamanho
Sálvio construiu uma carreira que fala por si:
- Ingressou na arbitragem da Federação Paulista em 1996.
- Estreou no cenário nacional ainda naquele ano.
- Apitou finais estaduais, final de Copa do Brasil (2011), decisões do Paulistão, jogos do Torneio Rio–São Paulo.
- No cenário internacional, esteve na final da Copa América de 2011, além de Libertadores, Sul-Americana, Eliminatórias da Copa e Mundial Sub-17.
- Foram mais de 600 jogos oficiais ao longo da carreira, com presença constante em partidas decisivas — exatamente quando o futebol mais exige equilíbrio.
Quando o jogo prometia tensão, FIFA, CBF e federações sabiam a quem recorrer.
Aposentado dos gramados em 2011, seguiu contribuindo fora das quatro linhas: foi comentarista na ESPN Brasil, no Grupo Globo e, mais recentemente, na Record, levando didática, bom senso e conhecimento para quem assiste.
Amizade que o futebol constrói
Mais do que o currículo, fica o lado humano. Sálvio é daqueles que o futebol nos permite chamar de amigo. Sempre me tratou com respeito, consideração e verdade — e esse sentimento é recíproco. Mantemos contato até hoje, prova de que o apito se cala, mas as relações verdadeiras ficam.
Fechamento
Sálvio Spínola Fagundes Filho não foi apenas um árbitro de grandes jogos.
Foi um construtor silencioso de credibilidade, alguém que ajudou a elevar o nível da arbitragem brasileira com sabedoria, preparo e caráter.
Na série Eles Fizeram História, ele representa exatamente isso:
quando o jogo pedia grandeza, o apito tinha dono.
