Falando de Futebol – Por Junior Moresco
Série: “Eles Fizeram História”
Hoje a nossa série especial presta homenagem a um personagem que marcou época no futebol brasileiro e também deixou sua marca em muitos gramados de Santa Catarina: o árbitro gaúcho Leonardo Gaciba da Silva.
Falar de Gaciba é falar de um árbitro que, como diz a velha gíria do futebol, “apitava de terno”. Elegante na condução das partidas, sempre muito bem posicionado e dono de uma visão de jogo impressionante. Era daqueles árbitros que dominavam o jogo com naturalidade, que impunham respeito sem precisar exagerar nos gestos ou nas palavras.
Dentro de campo, Gaciba era disciplinador, de pulso firme, mas ao mesmo tempo técnico, inteligente e extremamente preparado. Seus jogos eram conduzidos com maestria, sempre buscando a justiça dentro das quatro linhas e legitimando os resultados das partidas.
Tive o privilégio de trabalhar em muitos jogos com ele aqui em Santa Catarina. Posso dizer com tranquilidade que fizemos inúmeras partidas juntos pelo estado, numa época em que a arbitragem não contava com toda a estrutura que existe hoje. Muitos deslocamentos eram feitos por transporte terrestre, encarando estradas longas para cumprir a missão de levar o futebol com seriedade e profissionalismo.
E mesmo com toda essa rotina pesada, Gaciba sempre demonstrou algo que poucos conseguem manter por tanto tempo: equilíbrio emocional e profissionalismo. No vestiário sabia muito bem separar o momento da descontração do momento da concentração. Era um líder natural da equipe de arbitragem.
A carreira de Leonardo Gaciba da Silva começou cedo. Seu primeiro jogo profissional aconteceu em 1993, na partida entre Grêmio Atlético Farroupilha, de Pelotas, e Guarany Futebol Clube de Bagé. Pouco tempo depois, aos 25 anos, já apitava o maior clássico do Rio Grande do Sul: o famoso Gre‑Nal entre Grêmio e Sport Club Internacional, prova clara da confiança que o futebol depositava no seu trabalho.
Ao longo de sua trajetória, Gaciba acumulou aproximadamente 850 partidas oficiais, apitando jogos importantes do futebol brasileiro e internacional. Em 2005, alcançou outro marco importante ao entrar para o quadro da FIFA, representando o Brasil em competições internacionais.
Seu talento foi reconhecido diversas vezes. Ele foi eleito melhor árbitro do Campeonato Brasileiro pela Confederação Brasileira de Futebol em quatro oportunidades: 2005, 2006, 2007 e 2009, sendo três conquistas consecutivas — algo que poucos árbitros conseguiram na história da competição.
Mas como toda grande carreira no futebol, também houve momentos difíceis.
Em 2009, Gaciba acabou sendo desligado do quadro da FIFA após reprovações em testes físicos. Aquilo significou também a perda da chance de apitar a Copa do Mundo FIFA de 2010, na África do Sul, um sonho para qualquer árbitro. Foi um golpe duro para um profissional que sempre se dedicou intensamente à preparação.
Mesmo diante da frustração, mostrou novamente sua grandeza. Em 2010, decidiu encerrar a carreira dentro de campo, aos 39 anos, depois de mais de duas décadas dedicadas à arbitragem. Mas não se afastou do futebol.
Formado em radialismo, passou a atuar como comentarista de arbitragem na Rádio Gaúcha e na RBS TV, levando ao público sua experiência e conhecimento técnico. Posteriormente também trabalhou em grandes emissoras como Rede Globo e SporTV.
Sua experiência também o levou a ocupar um cargo de grande responsabilidade: em 2019 assumiu a chefia da arbitragem da Confederação Brasileira de Futebol, função que desempenhou até 2021, num dos períodos mais debatidos da arbitragem nacional.
Mais recentemente, continuando ligado ao futebol, foi anunciado em 2025 como assessor para assuntos de arbitragem do Cruzeiro Esporte Clube, mostrando que sua experiência ainda é extremamente valorizada dentro do esporte.
Mas aqui em Santa Catarina existe um detalhe muito especial que precisa ser lembrado.
Gaciba era um árbitro que tinha o respeito absoluto do saudoso ex-presidente da Federação Catarinense de Futebol, Delfim Pádua Peixoto Filho.
Delfim, homem experiente do futebol, quando via o nome de Gaciba nas escalas para jogos do campeonato catarinense, costumava dizer com tranquilidade:
“Essa partida está entregue em boas mãos.”
E muitas vezes completava com uma frase que dizia tudo sobre a confiança que tinha naquele árbitro:
“Se é o Gaciba que está no apito, vamos jogar bola, porque não temos com o que nos preocupar. O homem é um excelente árbitro.”
E não era apenas dentro de campo que Gaciba deixava sua contribuição.
Ele participou de inúmeros seminários de arbitragem em Santa Catarina, sempre como palestrante, compartilhando conhecimento, experiência e incentivando as novas gerações. Sempre foi um grande incentivador da arbitragem catarinense, ajudando a formar árbitros e a fortalecer a cultura de profissionalismo na arbitragem do estado.
Por isso, para quem esteve dentro do campo com ele, como eu estive em muitas oportunidades, fica algo que vai muito além das estatísticas ou dos cargos que ocupou.
Fica a lembrança do profissional correto, do companheiro de arbitragem leal, do homem que respeitava o futebol e fazia questão de honrar o apito que carregava no bolso.
Gaciba pertence a uma geração de árbitros que precisou superar dificuldades que hoje muita gente nem imagina. Estradas longas, pouco apoio, muita cobrança e ainda assim uma enorme responsabilidade: garantir a justiça dentro das quatro linhas.
E ele fez isso como poucos.
Por isso, Leonardo Gaciba da Silva não é lembrado apenas pelos jogos que apitou ou pelos prêmios que recebeu. Ele é lembrado pela postura, pela autoridade tranquila, pela inteligência e pela capacidade de conduzir grandes partidas.
Na história da arbitragem brasileira, seu nome está gravado entre aqueles que honraram a camisa preta.
E para nós que dividimos campo, vestiário e estrada com ele, fica o orgulho de poder dizer:
Nós estivemos ao lado de um dos grandes árbitros da história do futebol brasileiro.
Porque alguns profissionais passam pelo futebol.
Outros fazem história. ⚽👏
E Leonardo Gaciba da Silva é, sem dúvida nenhuma, um deles.
Falando de Futebol
Junior Moresco
