Eles Fizeram História – Miguel Aroldo Livramento, o eterno Miguelzinho
Florianópolis nunca foi só uma cidade. Sempre foi um jeito de ser.
E dentro desse jeito, poucas vozes ajudaram tanto a construir a identidade do futebol catarinense quanto a de Miguel Aroldo Livramento — o nosso Miguelzinho, o manezinho de alma escancarada, sapato branco, coração azul e branco e frases que atravessaram gerações.
Miguel não era apenas um comunicador.
Ele era o espetáculo.
Ao lado de Roberto Alves, formou uma das duplas mais emblemáticas da história da comunicação esportiva em Santa Catarina. Uma parceria dinâmica, intensa, cheia de embates no ar, risadas fora dele e respeito construído no tempo. Quando os dois dividiam microfone, ninguém trocava de canal ou estação. Era audiência garantida — não pelo jogo apenas, mas pelo que vinha junto: opinião, emoção, provocação e verdade.
Miguelzinho era o homem das frases eternas.
Daquelas que viraram patrimônio imaterial do futebol catarinense:
- “Conta aqui pro bonequinho”
- “Homem que tem medo não casa com mulher bonita”
- “Se isso não é pênalti, minha avó é uma bicicleta”
- “Alôôô, Doutooor!”
- “Esse Avaí faz coisa…”
Não eram bordões ensaiados.
Eram explosões genuínas de quem falava exatamente o que pensava — e pensava como torcedor, como manezinho, como alguém que vivia o futebol com o fígado, o coração e a garganta.
Miguel não interpretava um personagem.
Ele era ele mesmo. Autêntico, visceral, folclórico.
Torcedor assumido do Avaí, não escondia jamais suas cores. Pelo contrário: defendia o Leão da Ilha com unhas, dentes, caretas, caras e bocas — especialmente quando o Avaí perdia. A derrota doía nele como se fosse pessoal. E o torcedor, do outro lado do rádio ou da TV, se sentia representado. Porque Miguel falava o que muitos gritavam em casa.
Com mais de 50 anos de carreira no jornalismo esportivo, começou em 1972, na Rádio Jornal A Verdade. Passou por praticamente todas as emissoras da Grande Florianópolis. Rádio Guarujá, CBN Florianópolis, TV Barriga Verde, TV Cultura, RBS TV (hoje NSC), SCC, NDTV. Foi colunista do jornal Hora de Santa Catarina. Abriu portas, formou profissionais, criou estilo.
Miguel nunca quis ser intelectual do futebol.
Nunca quis viajar o Brasil inteiro.
Nunca fez questão de parecer algo que não era.
Era o típico manezinho: apaixonado por futebol, fissurado por curiós, dono de um humor afiado e de uma espontaneidade rara. Influenciador antes da palavra existir.
Quando Miguel falava, repercutia. Quando criticava, incomodava. Quando defendia, inflamava.
Na televisão, protagonizou momentos históricos. Teve desafetos públicos, como Alfredo Alberto, com quem dividiu bancada na antiga RBS TV. Os debates entre azul e branco e preto e branco eram acalorados, tensos, quase teatrais — e exatamente por isso, memoráveis. Dizem que eram inimigos fora do ar. Talvez fossem. Mas no ar, entregavam história.
Com Roberto Alves, os embates também eram intensos, mas sempre regados a amizade e respeito. No velório de Miguel, Roberto contou que se falavam pelo menos duas vezes por semana. Uma amizade de décadas, dessas que o tempo não corrói.
Miguel também viveu momentos que ultrapassaram o futebol, como o episódio marcante de 1986, quando um soldado invadiu os estúdios da RCE TV, em desespero, ameaçando tirar a própria vida. Lá estavam Miguel, Roberto Alves e Hélio Costa. Momentos que mostram que o jornalismo, às vezes, deixa de ser profissão e vira humanidade.
Nos últimos anos, Miguel seguiu perto de quem sempre foi sua razão maior: o Avaí.
Encerraria sua trajetória profissional no Isto é Avaí, canal no YouTube dedicado ao Leão da Ilha, levando análise, informação e, claro, emoção pura para a torcida.
Foi ali, fazendo o que mais amava, que se despediu do microfone.
No dia 1º de agosto de 2023, comentou Mirassol 2 x 2 Avaí.
No dia seguinte, 2 de agosto, Miguel Livramento nos deixou, aos 81 anos, vítima de uma parada cardiorrespiratória.
Partiu em casa.
Partiu depois de trabalhar.
Partiu como viveu: falando de futebol.
Para os amigos, era “um quiridu”.
Para os fãs, uma lenda.
Para Florianópolis, um símbolo.
Para o Avaí, uma voz que nunca será substituída.
Miguel Livramento fez história porque não tentou agradar a todos.
Fez história porque foi verdadeiro.
Fez história porque deu voz ao torcedor comum.
Fez história porque transformou opinião em entretenimento e emoção em legado.
E enquanto houver alguém gritando na arquibancada, indignado com um pênalti não marcado, pode apostar:
lá no fundo, vai ecoar uma voz conhecida dizendo:
“Se isso não é pênalti, minha avó é uma bicicleta.”
Miguelzinho segue vivo.
No rádio que já não existe.
Na TV que mudou de nome.
E principalmente, na memória de quem ama futebol do jeito mais puro possível.
Eles fizeram história.
Miguel Livramento foi um deles.
