Falando de Futebol – por Junior Moresco

Tem gente que levanta taça.

Tem gente que faz gol.

E tem gente que garante que o espetáculo aconteça com ordem, respeito e justiça.

Na nossa série “Eles Fizeram História”, hoje eu falo de um homem que carregava no olhar a responsabilidade do jogo. Nome e sobrenome: Wilson Luiz Seneme.

Antes de vestir o uniforme preto, foi zagueiro nas categorias de base do Guarani Futebol Clube. Disputou o Sul-Americano Sub-17 de 1986 pela Seleção Brasileira. Conhecia o jogo por dentro. Sabia o que é dividir uma bola, sentir a pressão da arquibancada, ouvir o grito da torcida. Talvez por isso tivesse tanta leitura quando mudou de lado.

Começou a apitar em 1998. Em 1999 concluiu o curso da Federação Paulista de Futebol. Em 2000 já estava no Campeonato Paulista. Em 2001 estreava no Brasileirão. Crescimento rápido? Sim. Mas sustentado por competência.

Em 2006 recebeu o escudo da FIFA. Foram 31 jogos internacionais representando o Brasil em competições de clubes e seleções. Não era apenas mais um árbitro brasileiro no cenário mundial — era um nome respeitado.

Mas eu gosto de falar do que vivi.

Foram inúmeros jogos juntos. Ele no apito, eu como delegado. E digo com tranquilidade: quando o nome de Seneme aparecia na escala, a gente sabia que o trabalho seria sério.

Vestiário fechado. Ambiente de concentração. Nada de excesso de pessoas. Nada de clima festivo antes da hora. Era foco total. Ele falava pouco, mais reservado, mas transmitia segurança. A postura já organizava o ambiente.

Dentro de campo, extremamente técnico. Corrida firme, posicionamento quase cirúrgico, leitura rápida dos lances. Aplicava a regra com convicção. Não deixava rodinha crescer. Não deixava a partida virar palco de desordem. Arbitrava com autoridade — e autoridade não se impõe gritando, se impõe sendo correto.

Uma coisa que sempre me marcou foi a superação física. Muitas vezes enfrentando dores no joelho, terminava partidas exausto. Mas nunca vi isso interferir na parte técnica. A entrega era total. O compromisso era maior que qualquer desconforto.

Em 2013 esteve pré-selecionado para a Copa do Mundo de 2014. O destino não o levou ao Mundial, mas isso não apaga a grandeza da trajetória construída.

Em fevereiro de 2014, após apitar a final do primeiro turno do Campeonato Paraense entre Clube do Remo e Paysandu Sport Club, anunciou sua aposentadoria dos gramados. Ali encerrava-se um ciclo dentro das quatro linhas.

Mas a história não parou.

Assumiu função na Comissão de Arbitragem da Confederação Sul-Americana de Futebol. Em 2016 tornou-se presidente da Comissão de Árbitros da entidade continental. Depois deu mais um passo importante: deixou a Conmebol para assumir a presidência da Comissão de Arbitragem da Confederação Brasileira de Futebol, passando a comandar a arbitragem brasileira.

Saiu do centro do campo para comandar o sistema inteiro. Isso é reconhecimento. Isso é respeito acumulado ao longo de anos.

Seneme foi daqueles árbitros que organizavam o jogo sem precisar ser protagonista. Que resolviam com postura. Que mantinham a partida sob controle pela competência e não pela vaidade.

Eu guardo cada jogo que fizemos juntos com muito orgulho. Cada viagem, cada pré-jogo em silêncio, cada partida difícil conduzida com maestria. Quem esteve ali sabe o peso da responsabilidade. E ele nunca fugiu dela.

Eles fizeram história.

E Wilson Luiz Seneme escreveu a dele com autoridade, disciplina e honra.

E eu assino essa coluna com memória viva, respeito verdadeiro e gratidão por ter dividido tantos jogos ao lado de um profissional desse tamanho.

Com muito prazer,

Junior Moresco

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@falandodefutebol26
Junior Moresco

Sobre o Autor

Junior Moresco

Junior Moresco é um apaixonado por futebol que dedicou 17 anos de sua vida profissional ao universo do esporte, vivenciando de perto o vestiário, a arquibancada e os bastidores. Com olhar atento e respeito pela história do futebol, Junior compartilha memórias, opiniões e análises, promovendo debates e reflexões sobre o jogo dentro e fora de campo. Para ele, futebol vai muito além do placar: é paixão diária, troca e sentimento.

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