Falando de Futebol – por Junior Moresco
O Campeonato Brasileiro 2026 mal começou e já escancarou um problema que insiste em se repetir no futebol brasileiro: a total desconexão entre calendário e realidade do torcedor. A queda evidente de público na primeira rodada não é um detalhe estatístico, é um alerta claro — e ignorá-lo seria mais um erro de planejamento.
Iniciar o Brasileirão ainda em janeiro, no meio de semana e em plena disputa dos estaduais, é praticamente empurrar o torcedor para fora do estádio. O resultado está nos números: média de 18.338 torcedores por jogo, quase 30% menor que a registrada em 2025. Não é desinteresse pelo campeonato. É cansaço, é confusão, é falta de prioridade.
Janeiro é um mês atípico. Férias escolares, viagens, orçamento ainda apertado após festas de fim de ano e, para muitos clubes, elencos em formação e times alternativos em campo. Some-se a isso o fato de o torcedor já estar emocionalmente envolvido com o estadual — muitas vezes decisivo — e temos o cenário perfeito para arquibancadas mais vazias.
O torcedor brasileiro não deixou de gostar de futebol. Ele apenas foi colocado diante de escolhas forçadas. Em uma mesma semana, decidir entre o jogo do estadual no fim de semana ou o Brasileirão na quarta-feira à noite não é escolha, é imposição. E quando o calendário não ajuda, o estádio sente primeiro.
Mesmo jogos de apelo nacional sofreram. O maior público da rodada, no Morumbi, com 27.203 torcedores, estaria longe de figurar entre os maiores públicos em qualquer rodada de 2025. No ano passado, cinco partidas superaram os 30 mil pagantes logo na estreia. Em 2026, apenas três jogos passaram dos 20 mil. Isso não é coincidência. É consequência.
O contraste fica ainda mais evidente quando olhamos para praças menores. Em Mirassol, menos de 6 mil torcedores acompanharam a estreia do time em casa. Não por falta de importância do jogo, mas porque o contexto simplesmente não convida o torcedor a ir ao estádio.
O mais preocupante é que, dentro de campo, o Brasileirão começou bem. Teve gols, intensidade, atuações individuais de alto nível e jogos equilibrados. O problema não é o produto. O problema é como ele está sendo entregue.
Enquanto o futebol brasileiro insistir em empilhar competições e tratar o torcedor como alguém que deve se adaptar a qualquer horário, qualquer data e qualquer contexto, a conta vai continuar chegando nas arquibancadas. Estádio vazio não é falta de paixão — é sinal de desgaste.
O Brasileirão merece palco, clima e momento. Começar espremido em janeiro, em meio de semana e concorrendo com os estaduais, é tirar do campeonato aquilo que ele tem de mais forte: o torcedor presente, pulsando, empurrando o time. Sem isso, o espetáculo perde força — e os números apenas confirmam o óbvio.
